Sem computador, celular e internet, alunos falam sobre ENEM

Thu, 21 May 2020 11:05:01 -0300 / 0 Comentários

Alunos falam de concorrência desleal com estudantes que têm acesso ao ensino remoto para se prepararem para exame. Professora fala em 'cancelamento', para não promover desigualdade.


O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2020 foi adiado, mas estudantes do Rio de Janeiro continuam angustiados com a realização da prova. O motivo é que grande parte deles não tem acesso a computadores, celular ou mesmo internet, ferramentas essenciais para os estudantes.
"Estou desanimado mesmo tendo esse adiamento do Enem", afirmou Túlio Salvador Morais Novaes, de 19 anos, estudante da rede estadual fluminense.
De acordo com o estudante, nenhum representante do Colégio Missionário Mário Way, onde cursa o 3º ano do ensino médio, entrou em contato com ele para avisar sobre como seria o ensino durante o período de pandemia da Covid-19.
"Para falar a verdade, eu estou desanimado mesmo tendo esse adiamento do Enem. Tem muito tempo que eu não vou na escola, estou estudando um pouco só de casa com alguns livros. Não tenho computador, celular e internet. Esse adiamento não vai me ajudar muito. A última vez que eu fui na escola ainda não tinha nem o isolamento social", disse o aluno.
Túlio afirmou que as atividades estão acontecendo de forma online, mas ele não tem acesso a computador, celular e internet. Para dar essa entevista, ele conseguiu um telefone emprestado de um amigo.
“É complicado porque eu sei que estou saindo atrás dos outros concorrentes. Eu não sei como vou me sair com os outros participantes. Quem está estudando com vídeo e material adequado fica mais tranquilo para o Enem”, completou Túlio.
A preocupação dele é compartilhada por outros alunos da rede pública do RJ, familiares e professores.

'[Enem] Precisa ser cancelado', diz professora
Renata Rosseo, de 39 anos, é professora de língua espanhola no Ciep Guadalajara, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ela afirmou que a maioria dos alunos está fora da plataforma disponibilizada, segundo informações do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe).
“O que a gente tem recebido de denúncias é que a maioria está fora da plataforma online. Eles não têm celular da forma como as pessoas pensam como ‘um celular para cada um’. As vezes tem um celular compartilhado para cada casa", afirmou.
A professora acredita que o exame precisa ser cancelado para que não seja promovida ainda mais a desigualdade social.
“Para que a gente não promova mais desigualdade no nosso país, é preciso que o Enem seja cancelado. Porque, infelizmente, os alunos mais pobres continuam sem ter acesso às aulas online. Só o material escrito não dá conta para solucionar as dúvidas e os esclarecimentos que os alunos precisam”.
As dificuldades se acumulam para alguns alunos quer precisam estudar.

Giovana dos Santos, de 23 anos, é moradora do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Ela não tem acesso às plataformas digitais. Além disso, Giovana conta que precisa dividir o seu tempo entre cuidar da filha e se preparar para o Enem.

“É tudo online e, no momento, eu não tenho computador, internet, não tenho um telefone adequado para poder acompanhar as aulas. Eu tenho filho pequeno e não dá para ficar acompanhando a aula online. Tenho que cuidar de uma criança, está sendo muito difícil”, disse.
Mesmo para os que estão com acesso à internet e aos dispositivos necessários, o estudo está limitado.


'Perda de tempo'
Caio Rogério, de 17 anos, é morador da Rocinha, na Zona Sul do Rio. Ele afirmou que não se sente preparado para realizar a prova do Enem, mesmo tendo acesso ao ensino online.
“Eu não me sinto preparado mesmo com o adiamento. Eles estão adiando uma coisa que não deveria ter. É uma perda de tempo. Se o Enem acontecer, vai mostrar a desigualdade social no nosso pais. A maioria dos estudantes não tem celular, computador, internet. Como vão estudar? Mesmo que atrase um ou dois meses”, disse Caio.
“Eu também não estou conseguindo acompanhar o EAD [Ensino a Distância], que é pelo aplicativo Google Classroom. A maior dificuldade que eu estou tendo é que as matérias são excessivas, são gigantes. Quando você vai tirar uma dúvida com o professor, até ele responder, a nossa dúvida já passou. Isso é cansativo, até para os professores”, disse.
Problema parecido está enfrentando o estudante Ryan Alves, de 17 anos, que mora na comunidade Pavão-Pavãozinho em Copacabana, na Zona Sul do Rio.
Ele disse que, com a demora dos professores, ele acaba tirando suas dúvidas na internet.
“Eu sou uma pessoa que tem acesso à internet e consigo acessar o que minha escola consegue proporcionar. Mas é muito difícil reter a informação por eu não ter um professor imediato para eu poder consultar. Às vezes eu tenho uma dúvida da matéria passada, porque a matéria é passada em texto. Quando a gente está na escola é diferente, tem professor que a gente pode consultar”, disse.
Ryan explicou que costuma buscar outros meios para tirar suas dúvidas.
“Nesse caso [quando surgem dúvidas], é cada aluno por si. Porque o aluno vai pesquisar, vai no Google, vai no Youtube. Essa é a situação de quem está estudando para o Enem. Imagino quem não tem internet ou um dispositivo para poder acessar”, explicou.


O que dizem os citados
A Secretaria estadual de Educação informou que as aulas foram interrompidas no dia 16 de março. O recesso de 15 dias em julho foi antecipado e, no início do mês de abril, o ensino remoto foi iniciado através da plataforma Google Classroom.
Os estudantes, segundo a secretaria, já começaram a receber o material pedagógico impresso em suas casas. Além disso, as aulas gravadas são exibidas todos os dias na TV aberta de 6h às 7h, com reprise de 14 e 15h.
A secretaria acrescentou que serão entregues chips com dados de internet para todos os alunos, docentes e diretores que estão estudando e trabalhando na plataforma. No entanto, não informou quando os chips serão entregues e como os alunos sem celular irão utilizar.
g1